O Tesouro Selic perde para os ETFs de renda fixa no longo prazo por causa do calendário do imposto
A alíquota mínima é a mesma nos dois: 15%. O que separa um do outro é o vencimento. Todo Tesouro Selic vence, e todo vencimento traz uma retenção obrigatória que arranca dinheiro de dentro dos juros compostos. Com R$ 100 mil e 20 anos, o ETF certo termina R$ 85 mil na frente, pagando mais imposto. O ETF errado, que é justamente o mais famoso, fica atrás dos dois.
Existe uma frase que circula há anos nos grupos de investimento: "ETF de renda fixa é mais eficiente que o Tesouro Selic por causa do imposto." Ela é verdadeira. Também é enganosa, porque quase ninguém sabe explicar por quê, e quem tenta costuma errar o motivo.
Quem segura Tesouro Selic por mais de dois anos paga exatamente os mesmos 15% de imposto de renda que um ETF de renda fixa de carteira longa. A diferença está em quando o imposto é cobrado. E o Tesouro Selic tem uma data marcada no calendário que o ETF simplesmente não tem.
Antes de qualquer conta, porém, precisamos resolver a pergunta que costuma ficar no ar: quais ETFs, exatamente?
01 · Nomes na mesaQuais ETFs de renda fixa existem hoje na B3
"ETF de renda fixa" não é um produto único. É uma prateleira com produtos muito diferentes entre si, e a alíquota de imposto de cada um depende do que está dentro dele. Veja a prateleira inteira antes de escolher.
Pós-fixados, atrelados à Selic
Os únicos comparáveis ao Tesouro SelicPrefixados
Tesouro Prefixado, via bolsaAtrelados à inflação
Tesouro IPCA+, via bolsaOutros
Confira o regulamento antesRepare no padrão: quanto mais longa a carteira, menor a alíquota. E repare no ponto fora da curva, o LFTS11, que paga 25%. Entender por quê é entender o artigo inteiro.
Daqui em diante, só dois interessam
Os ETFs de inflação e de prefixados sobem e descem de preço junto com a curva de juros. Comparar o IMAB11 com o Tesouro Selic seria comparar dois riscos diferentes, e a conclusão diria mais sobre a Selic do que sobre imposto.
Por isso a simulação deste artigo usa só os dois pós-fixados: LFTB11 e LFTS11. São os únicos que tentam fazer a mesma coisa que o Tesouro Selic, acompanhar a taxa básica com risco soberano e pouca oscilação.
02 · A regraA alíquota do ETF olha para dentro da carteira, não para você
Quatro palavras resolvem quase toda a confusão em renda fixa. Se você guardar só isso do artigo, já valeu a leitura.
PMRC
Prazo Médio de Repactuação da Carteira. É o prazo médio dos títulos dentro do fundo. No ETF de renda fixa, é ele que define a alíquota. Seu tempo de permanência não conta.
Diferimento
Pagar imposto mais tarde. Enquanto o IR não sai da sua conta, ele continua rendendo juros junto com o resto. É o motor de tudo o que vem a seguir.
Come-cotas
Antecipação semestral de IR que atinge fundos comuns de renda fixa em maio e novembro. ETF de renda fixa e Tesouro Direto estão livres dela.
Marcação a mercado
O preço do título oscila todo dia conforme os juros mudam. É mínima no Tesouro Selic e no LFTS11, e relevante em ETFs de carteira longa.
Com o PMRC na mão, as duas tabelas de imposto ficam claras. No Tesouro Direto, a alíquota cai conforme você segura o título. No ETF, a alíquota depende do prazo dos papéis que o gestor comprou.
Tesouro Selic
Alíquota pelo seu prazo de aplicaçãoETF de renda fixa
Alíquota pelo prazo da carteira, o PMRCAgora o "P2" do IRFM11 faz sentido: o índice é obrigado a manter prazo médio de 720 dias justamente para ficar na faixa de 15%. E o LFTB11 carrega uma pitada de Tesouro IPCA+ 2060 pelo mesmo motivo. São produtos desenhados em torno da regra tributária.
Dois pontos importam aqui. O primeiro: no curto prazo o ETF de carteira longa leva vantagem, porque quem saca em seis meses paga 22,5% no Tesouro e 15% no ETF. O segundo: essa vantagem some depois de dois anos, quando os dois passam a pagar 15%. Aí o Tesouro Selic fica até melhor, já que rende Selic mais 0,07% ao ano e cobra 0,20% de custódia, isenta nos primeiros R$ 10 mil.
Se a história parasse aqui, o Tesouro Selic ganharia em qualquer prazo acima de dois anos. Ela não para aqui.
03 · O detalhe caroTodo vencimento é um saque forçado
Um ETF nunca vence. Ele é um fundo: rola os títulos internamente, para sempre, e você só encontra o Leão no dia em que vender a cota. Com título público a história muda. O Tesouro Selic tem data de vencimento, e nesse dia o IR é retido sobre todo o rendimento acumulado. O dinheiro cai na sua conta já líquido, e você precisa comprar outro título.
Parece detalhe burocrático, mas o imposto retido em 2031 é dinheiro que deixa de render juros compostos de 2031 até 2046. E desde fevereiro de 2026 o Tesouro Direto oferece um único vencimento de Tesouro Selic, o de 2031. Na prática, quem investe hoje pensando em 20 anos vai ser obrigado a liquidar e recomeçar cerca de quatro vezes.
R$ 100 mil no Tesouro Selic, 20 anos, Selic a 12% ao ano
Cada vencimento retém 15% de IR sobre o ganho acumulado desde o último resgate
Repare que a alíquota nunca subiu. Foram 15% quatro vezes. O que muda é que o imposto de 2031 nunca chegou a ver 2046.
04 · A contaVinte anos, três caminhos, um vencedor
As premissas, para você ler antes de acreditar no gráfico
Aporte único de R$ 100.000, sem novos depósitos. Selic constante em 12% ao ano: ela estava em 14,25% em julho de 2026, mas cai nas projeções do Focus, então usamos um valor conservador. Rolagem do Tesouro Selic a cada 5 anos, custódia B3 de 0,20% e taxa de administração dos ETFs de 0,19%.
Ficaram de fora corretagem, spread de bolsa e a isenção de custódia até R$ 10 mil. Os dois primeiros pesam contra o ETF; o terceiro, a favor do Tesouro. Com Selic a 9% a vantagem do LFTB11 em 20 anos cai para 7,4%; a 14,25%, sobe para 15,1%.
Patrimônio líquido se você vendesse tudo naquele ano
R$ 100.000 aplicados em 2026, Selic constante a 12% ao ano, já descontados IR e taxas
Nos cinco primeiros anos, o Tesouro Selic vence. De pouco, mas vence, porque seu custo bruto é menor e a alíquota já é a mesma. A curva do LFTB11 só cruza a do título no ano 6, logo depois da primeira retenção, a do vencimento de 2031.
De lá em diante, a distância cresce. No ano 10 são R$ 5,8 mil. No ano 15, R$ 28 mil. No ano 20, R$ 85.369, ou 11,8% a mais de patrimônio, com o mesmo indexador, o mesmo risco soberano e a mesma alíquota mínima.
O investidor do LFTB11 paga R$ 124.863 de IR. O do Tesouro Selic paga R$ 109.798. Quem pagou mais imposto terminou com mais dinheiro, porque pagou depois, sobre uma base que passou vinte anos rendendo.
Dá para isolar o efeito com um exercício simples. Imagine um Tesouro Selic imortal: mesma remuneração, mesma custódia, mesmos 15%, só que sem data de vencimento, com o imposto cobrado uma única vez, no ano 20.
O custo exato do calendário
O ETF, portanto, não vence por ser um produto melhor. Ele vence por ter uma estrutura fiscal melhor para o longo prazo, resultado de engenharia jurídica e não de gestão. Engenharia jurídica pode ser revogada, o que nos leva à parte mais importante deste texto.
05 · A armadilhaPor que o LFTS11 paga 25%
Se você leu até aqui e pensou "ótimo, vou comprar o ETF de Tesouro Selic", pare. O LFTS11 é o pior dos três.
Títulos Tesouro Selic são pós-fixados: sua remuneração é repactuada todo dia útil, junto com a Selic Over. Para o Fisco, o prazo de repactuação de uma LFT é de um dia, mesmo que o papel só vença em 2031. Um ETF composto só de Tesouro Selic cai, então, na faixa de até 180 dias: 25% de IR. Pior que o teto de 22,5% da tabela regressiva.
De "melhor reserva de emergência do mercado" a fora das carteiras recomendadas
A história de um ETF que descobriu, no meio do caminho, que pagava 25%
Nos 20 anos da simulação, o LFTS11 termina com R$ 724.317, praticamente empatado com o Tesouro Selic, apesar de entregar R$ 208.106 de imposto, quase o dobro. É o diferimento salvando um produto de alíquota ruim. Em prazos de 2 a 10 anos, ele simplesmente perde.
A lição vale mais que qualquer sigla: a eficiência tributária de um ETF de renda fixa está na carteira dele, e não no rótulo. O nome do produto não diz qual é qual. O regulamento e o PMRC dizem.
06 · DecisãoQuando cada um faz sentido
| Característica | Tesouro Selic 2031 | LFTB11 | LFTS11 |
|---|---|---|---|
| Rentabilidade bruta | Selic + 0,07% a.a. | Perto da Selic | Perto da Selic |
| Custo anual | 0,20% de custódia B3, isento até R$ 10 mil |
0,19% de administração | 0,19% de administração |
| Imposto de renda | 22,5% a 15%, pela tabela regressiva |
15% fixo, na venda | 25% fixo, na venda |
| Come-cotas | Não | Não | Não |
| IOF em resgate abaixo de 30 dias | Sim | Não | Não |
| Vencimento | 01/03/2031 | Não tem | Não tem |
| Marcação a mercado | Mínima | Existe, pela fatia de IPCA+ 2060 | Mínima |
| Corretagem e spread | Não há | Sim, negociação em bolsa | Sim, negociação em bolsa |
Duas linhas merecem atenção. A isenção de custódia nos primeiros R$ 10 mil deixa o Tesouro Selic praticamente imbatível para quem está começando, porque nesse pedaço ele roda com custo zero. E a marcação a mercado do LFTB11 pesa mais do que parece: a fatia de Tesouro IPCA+ 2060 que garante os 15% também traz oscilação de preço. Ele serve para acumular, mas não substitui reserva de emergência.
Tesouro Selic ou Tesouro Reserva
Até cinco anos, com dinheiro que pode ser chamado a qualquer momento. Sem oscilação relevante, custódia isenta até R$ 10 mil, resgate no mesmo dia. O Tesouro Reserva, lançado em maio de 2026, é a versão simplificada dessa mesma ideia.
LFTB11 ou outro ETF de PMRC acima de 720 dias
Acima de seis anos, para dinheiro que não vai ser tocado. O diferimento do imposto compõe. Exige aceitar alguma oscilação de cota e conferir o PMRC no regulamento, não no marketing.
LFTS11 e outros ETFs só de Selic
Pagam 25% em qualquer prazo, mais administração, mais corretagem, tudo para replicar um título que você compra direto, mais barato e com alíquota menor. Servem apenas para negociação de curtíssimo prazo.
07 · RessalvasO que pode invalidar tudo isso amanhã
A regra do PMRC já mudou uma vez, no meio do jogo
O LFTS11 foi vendido durante quase dois anos como um produto de 15% e virou um produto de 25% depois de uma nota do Tesouro Nacional. Nada garante que a leitura aplicada hoje ao LFTB11 e ao IRFM11 seja permanente. É risco regulatório, o tipo de risco que nenhum gráfico de rentabilidade mostra.
Uma alíquota única mataria boa parte da vantagem
A MP 1.303/2025 queria trocar a tabela regressiva por uma alíquota de 17,5%, elevada a 18% no relatório final. Ela caducou em 8 de outubro de 2025, sem votação na Câmara, e as regras antigas voltaram a valer. O tema deve retornar como projeto de lei. Se voltar, o efeito do diferimento continua; a diferença de alíquota entre os produtos, não.
Selic constante por 20 anos não existe, e o ciclo de rolagem é uma premissa
Assumimos vencimentos a cada cinco anos, que é o que o Tesouro oferece hoje. Se ele voltar a emitir Selic mais longo, a desvantagem encolhe: com rolagem de dez em dez anos, a vantagem do ETF cai de 11,8% para 6,1%. Com rolagem a cada três anos, sobe para 14,9%.
Isto é conteúdo educacional, não recomendação
Nenhum ativo citado aqui é indicação de compra. Rentabilidade passada não garante rentabilidade futura, ETFs não contam com FGC, e a decisão certa depende do seu horizonte, da sua necessidade de liquidez e da sua situação tributária. Se a escolha for relevante para o seu patrimônio, consulte um profissional habilitado.
A tese com que abrimos sobrevive à conta, numa versão mais estreita do que a frase de grupo de WhatsApp sugere. O Tesouro Selic perde acima de seis anos, contra ETFs de carteira longa como o LFTB11, e perde por diferimento. Abaixo disso, ganha. Contra o LFTS11, ganha em quase todo horizonte relevante.
Mais útil que o placar é o princípio por trás dele: na renda fixa brasileira, o momento da tributação costuma valer mais do que a alíquota da tributação. É o mesmo princípio que explica por que o come-cotas destrói fundos DI no longo prazo, por que o Tesouro IPCA+ sem cupom bate o de juros semestrais para quem acumula, e por que girar carteira sai caro mesmo quando cada operação parece barata. Quem entende isso para de escolher renda fixa por manchete e passa a escolher por estrutura.
Pare de escolher renda fixa pela alíquota da capa
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