Se você perguntar para dez pessoas o que muda para elas com a reforma tributária, é bem provável que a maioria responda errado, e não por falta de atenção. É porque duas leis diferentes andam juntas debaixo do mesmo apelido, uma sobre o que você compra e outra sobre o que você ganha, e a imprensa costuma tratar as duas como se fossem uma coisa só.

Este artigo separa as duas. A primeira parte explica o IBS e a CBS, o novo imposto sobre consumo, e mostra exatamente onde ele encosta na sua vida financeira, que é bem menos do que parece. A segunda parte explica a Lei 15.270/2025, que já está em vigor e trouxe de volta a tributação sobre dividendos depois de quase três décadas isentos.

27,91% alíquota de referência estimada do novo IVA brasileiro, acima do teto de 26,5% previsto em lei
R$ 50 mil valor mensal de dividendos, por empresa pagadora, a partir do qual passa a haver retenção de 10%
R$ 600 mil renda anual total que passa a acionar o imposto mínimo, o IRPFM
2033 ano em que o novo sistema tributário sobre consumo passa a valer por completo

Reforma do consumoO calendário do IBS e da CBS até 2033

A reforma do consumo troca cinco tributos (ICMS, ISS, PIS, Cofins e, em boa parte, o IPI) por dois: o IBS, de estados e municípios, e a CBS, federal. A transição foi desenhada para ser longa de propósito, para evitar um choque de preços de uma vez só, e por isso o calendário se estende por quase uma década.

2026

Ano de testeAgora

CBS e IBS aparecem nas notas fiscais com alíquota simbólica de 1% (0,9% + 0,1%). O valor é compensado com o PIS/Cofins devido, então não há aumento real de carga. A obrigação de destacar os dois tributos passou a valer em 3 de agosto, por etapas.

2027

PIS e Cofins deixam de existir

A CBS passa a valer com alíquota cheia, próxima de 9,2%. O IPI é zerado para a maioria dos produtos, exceto os da Zona Franca de Manaus. O IBS, por enquanto, segue numa alíquota de teste de apenas 0,1%, só para validar os sistemas de arrecadação dos estados e municípios.

2029

Transição estadual e municipal

ICMS e ISS começam a cair de forma gradual, enquanto o IBS sobe na mesma proporção. É a etapa mais longa da reforma, porque envolve renegociar a arrecadação de 27 estados e mais de 5.500 municípios.

2033

Sistema definitivo

ICMS e ISS deixam de existir. O Brasil passa a operar só com o IVA dual (IBS mais CBS), com alíquota cheia em todo o país.

O que muda no seu dinheiroOnde o IBS e a CBS encostam, e onde não encostam

Aqui está o ponto que mais gera confusão: o IBS e a CBS tributam o consumo, ou seja, a compra de bens e serviços. Comprar uma ação, resgatar um fundo ou vender um título público não é consumo, é uma operação financeira, e por isso fica fora da lógica principal da reforma. O que entra no radar é outra coisa, os serviços financeiros que cercam o seu investimento.

Onde você sente O que muda Quando
Fundos de investimento Ficam fora da incidência direta do IBS e da CBS Não se aplica
Taxa de administração e gestão Pode subir, principalmente em fundos cujo gestor está no lucro presumido A partir de 2027
Seguros, exceto saúde Saem da incidência do IOF e entram no regime específico de IBS e CBS A partir de 2027
VGBL e PGBL ITCMD não incide sobre o valor pago ao beneficiário na morte do titular, decisão do STF incorporada à lei Já vale
Tarifas bancárias e corretagem Passam a embutir IBS e CBS, com carga inicial de 10,85% subindo até 12,5% em 2033 A partir de 2027
IOF Continua existindo à parte, sem substituição pelo IVA. Há debate técnico sobre risco de bitributação no crédito e nos seguros Já vale, com ajustes

O detalhe que mais importa nesta seção

Fundos de investimento, ações, títulos públicos e privados não têm o IBS e a CBS incidindo sobre o rendimento. O que pode ficar mais caro é o serviço em volta: a taxa que você paga para alguém administrar ou operar o seu dinheiro, não o retorno do investimento em si.

Para quem já leu o artigo sobre seguro de vida aqui no blog, vale destacar: a lei incorporou a decisão do STF de que o ITCMD não incide sobre VGBL e PGBL pagos a beneficiários por morte do titular. Ou seja, essa vantagem sucessória, que já vinha sendo praticada, agora está escrita na lei.

A alíquotaO número que estourou o teto legal

Em 29 de julho de 2026, o Comitê Gestor do IBS publicou a Resolução nº 14/2026 com uma estimativa da alíquota de referência do novo imposto: 27,91%, sendo 18,70 pontos de IBS e 9,21 de CBS. O número serve apenas para projetar a arrecadação de 2027, mas ele já passou do teto de 26,5% que a própria Lei Complementar 214/2025 havia prometido não ultrapassar, o que obriga o governo a enviar ao Congresso um projeto para tentar trazer a conta de volta ao limite.

Se a estimativa se confirmar, o Brasil vira o maior IVA do mundo

Comparação entre a alíquota padrão de IVA em diferentes países, em pontos percentuais

Brasil, estimativa 2026 Demais países, alíquota vigente

Vale registrar que essa conta ainda pode mudar bastante. A primeira avaliação quinquenal do sistema está prevista só para 2031, e a própria lei prevê um mecanismo de correção caso a alíquota estimada continue acima do teto. Mas o número de 27,91% já circula, e é difícil de esquecer uma vez que se sabe onde o Brasil ficaria no ranking.

Reforma da rendaA lei que já mexe no seu bolso desde janeiro

Enquanto o IBS e a CBS ainda estão em fase de teste, a Lei 15.270/2025 já é realidade. Sancionada em 26 de novembro de 2025, ela entrou em vigor em janeiro de 2026 e trouxe três mudanças que caminham juntas: isenta quem ganha pouco, tributa quem recebe muito em dividendos e cria um piso mínimo de imposto para quem tem renda anual alta.

A parte mais comentada é a isenção: quem tem renda tributável de até R$5.000 por mês deixou de pagar Imposto de Renda, um salto em relação ao limite efetivo anterior, de R$2.824. Quem ganha até R$7.350 por mês tem desconto parcial e progressivo. A Receita estima que cerca de 36 milhões de contribuintes sejam beneficiados, com uma renúncia fiscal de mais de R$25 bilhões por ano.

Essa conta precisa ser paga por alguém, e a lei escolheu duas fontes. A primeira é uma retenção de 10% na fonte sobre dividendos que uma mesma empresa pagar a uma mesma pessoa física, quando o valor ultrapassar R$50 mil em um único mês. É a volta da tributação sobre lucros e dividendos, que estavam isentos desde 1996. A segunda é o IRPFM, o Imposto de Renda da Pessoa Física Mínimo, que olha para a renda anual total do contribuinte, incluindo rendimentos isentos e de tributação exclusiva, e cobra um piso mínimo de imposto de quem ganha muito.

Como funciona o IRPFM

Alíquota mínima sobre a renda anual total, incluindo rendimentos isentos

Até R$600 mil: isento
0% a 10%
10% fixo
R$ 0 R$ 600 mil R$ 1,2 milhão +

A retenção de 10% sobre dividendos acima de R$50 mil por mês funciona como uma antecipação do IRPFM. O valor é ajustado na declaração anual: se a alíquota mínima devida for menor do que o total já retido, a diferença volta como restituição.

Na práticaQuem é realmente afetado

É fácil ler "voltou o imposto sobre dividendos" e presumir que isso encosta em qualquer pessoa com ações na carteira. Não encosta, na maioria dos casos, porque o limite de R$50 mil é por empresa pagadora, dentro de um mesmo mês, para a mesma pessoa física.

Investidor de bolsa comum

Na prática, quase nada muda

Uma carteira diversificada, com posições em várias empresas, dificilmente ultrapassa R$50 mil de dividendos vindos de uma única companhia no mesmo mês. É preciso ter uma posição bastante concentrada para sentir esse efeito.

Sócio de empresa própria

Esse é o perfil mais afetado

Quem distribui lucro mensalmente da própria empresa e ultrapassa R$50 mil já sofre retenção de 10% na fonte. Vale reavaliar o equilíbrio entre pró-labore, dividendos e juros sobre capital próprio.

Renda anual acima de R$600 mil

Entra no cálculo do IRPFM

Mesmo quem recebe parte da renda de fontes isentas ou de tributação exclusiva passa a somar tudo na declaração anual para checar se o imposto mínimo é devido.

RessalvasO que ainda pode mudar

A alíquota de 27,91% é uma estimativa, não um número fechado

Ela serve para projetar a arrecadação de 2027 e pode ser revisada. A lei prevê que o governo precisa agir se a conta continuar acima do teto de 26,5%, e a primeira avaliação oficial do sistema só acontece em 2031.

O regime específico do setor financeiro ainda está sendo detalhado

Parte das regras de base de cálculo e dedução para bancos, seguradoras e gestoras depende de regulamentação infralegal que segue em construção até a entrada em vigor efetiva, em 2027.

A Lei 15.270/2025 já enfrenta disputas pontuais

Um exemplo é o prazo para aprovar a distribuição de lucros acumulados até o fim de 2025 sob as regras antigas, que precisou ser prorrogado pelo STF por decisão liminar.

Conteúdo educacional, não consultoria tributária

Quem distribui dividendos relevantes, administra uma empresa ou tem patrimônio a estruturar deve procurar um contador ou advogado tributarista para uma análise da própria situação.

No fim das contas, a reforma tributária que de fato mexe no bolso de quem investe não é a mais falada. O IBS e a CBS vão mudar o preço de quase tudo que se compra no Brasil, mas deixam o retorno do investimento praticamente intocado. Quem quer entender o efeito real na própria carteira precisa olhar para a lei mais discreta, a que já está em vigor desde janeiro, e verificar se o próprio perfil de renda entra em algum dos limites que ela criou.

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Disclaimer: As informações sobre a reforma tributária, alíquotas estimadas e regras da Lei 15.270/2025 apresentadas neste artigo têm finalidade exclusivamente educacional e foram checadas em fontes públicas até 24 de agosto de 2026. A alíquota de referência do IVA, de 27,91%, é uma estimativa sujeita a revisão, e parte da regulamentação do regime específico do setor financeiro ainda está em construção até a entrada em vigor efetiva, em 2027. Este conteúdo não constitui consultoria tributária, contábil ou jurídica. Quem distribui dividendos relevantes, administra uma empresa ou tem patrimônio a estruturar deve consultar um contador ou advogado tributarista para uma análise da própria situação.