Um oceano esquentando do outro lado do planeta parece uma notícia distante da sua vida financeira. Não é. Quando as águas do Pacífico equatorial aquecem além do normal, o padrão de chuvas e secas muda em quase todos os continentes ao mesmo tempo. Lavouras quebram em um lugar, enchentes destroem plantações em outro, e o resultado chega, meses depois, na forma de preços mais altos no supermercado e de inflação que o Banco Central precisa combater.

Esse fenômeno se chama El Niño, e o que está se formando agora, entre 2026 e 2027, tem chance real de ser o mais forte já medido. Este texto explica primeiro o que é o fenômeno, depois mostra o que os dois maiores El Niños da história recente fizeram com a economia mundial, e por fim aterrissa no que isso significa para o Brasil e para o seu bolso.

US$ 5,7 tri perda econômica global nos cinco anos após o El Niño de 1997-98, segundo estudo da Science
56% dos países do mundo sofrem queda significativa de crescimento após um El Niño forte
1,5°C o quanto o El Niño de 1997-98 aqueceu temporariamente o ar do planeta
+40% alta dos contratos futuros de cacau em Nova York desde fevereiro de 2026

O básico primeiroO que é o El Niño, sem meteorologês

Imagine uma faixa enorme do Oceano Pacífico, na altura da linha do Equador, entre a América do Sul e a Ásia. Normalmente, os ventos empurram as águas quentes da superfície para o lado da Ásia, deixando o lado da América com águas mais frias. No El Niño, esses ventos enfraquecem, e a água quente se espalha de volta para o leste, aquecendo toda a faixa central e leste do Pacífico.

Esse aquecimento parece pequeno em números, meio grau, um grau, dois graus acima da média, mas ele é suficiente para desorganizar a circulação da atmosfera em escala global. É por isso que meteorologistas classificam a intensidade do fenômeno justamente por essa diferença de temperatura, chamada de anomalia. Quando ela passa de 2°C no pico, o evento entra na categoria informal de super El Niño, um patamar que só três eventos atingiram na era moderna: 1982-83, 1997-98 e 2015-16.

Três palavras que resolvem a leitura de qualquer notícia sobre o tema

El Niño é o aquecimento anormal do Pacífico. La Niña é o oposto, o resfriamento. E neutro é quando nenhum dos dois predomina. Os três se alternam num ciclo chamado ENOS, o El Niño-Oscilação Sul, sem período fixo. Em 2026, o planeta saiu de uma La Niña, passou por um curto período neutro, e entrou em El Niño a partir de maio, com a NOAA oficializando o evento em junho.

Acontecendo agoraPor que este evento chamou a atenção dos cientistas

O que diferencia o El Niño de 2026 não é só a intensidade, é a velocidade com que ele se formou. Já no fim de junho, a anomalia na região central do Pacífico marcava cerca de +1,8°C, um valor que a maioria dos El Niños nunca alcança nem no auge do inverno. Na semana de 9 de setembro, a leitura chegou a +2,9°C, a mais alta deste evento e a semana de setembro mais quente já registrada desde que a série começou, em 1981. O recorde histórico semanal absoluto é de +3,0°C, cravado em novembro de 2015.

Por causa desse ritmo, a NOAA passou a estimar mais de 90% de chance de um evento muito forte durante a primavera e o verão do Hemisfério Sul, e 75% de chance de que este seja o El Niño mais forte já registrado desde 1950, para o trimestre de outubro, novembro e dezembro de 2026. O padrão de aquecimento, concentrado mais para o lado da América do Sul, é o do tipo que costuma trazer os impactos mais intensos para a costa do Peru e as teleconexões globais mais confiáveis.

A lição da históriaO rastro econômico dos dois maiores El Niños

Aqui está a parte que transforma um fenômeno climático em assunto de economia. Dois pesquisadores do Dartmouth College, os geógrafos e economistas Cristopher Callahan e Justin Mankin, publicaram na revista Science um estudo que calculou o custo econômico dos El Niños mais fortes da história. As conclusões são impressionantes, e explicam por que esse tema merece atenção mesmo de quem não é agricultor.

Perda econômica global nos cinco anos após cada super El Niño

Estimativa em trilhões de dólares, segundo estudo publicado na revista Science

1982-83: US$ 4,1 trilhões 1997-98: US$ 5,7 trilhões

O ponto mais importante do estudo é que a perda não se concentra no ano do fenômeno. Ela se espalha por cinco anos, num efeito cascata. Como os autores explicam, o El Niño prejudica o crescimento econômico dos países por anos depois do evento. Segundo o levantamento, 56% dos países do mundo sofrem quedas significativas de crescimento após um El Niño, de 2,3% em média, das quais não se recuperam facilmente. Os Estados Unidos viram seu PIB ficar 3% menor mesmo cinco anos depois de cada um dos dois grandes eventos, em comparação com um cenário sem o fenômeno.

Um segundo estudo, publicado na Nature, chegou a números na mesma ordem de grandeza usando outro método, atribuindo perdas de US$ 2,1 trilhões ao evento de 1997-98 e de US$ 3,9 trilhões ao de 2015-16. Os valores exatos variam conforme a metodologia, mas a direção é sempre a mesma: super El Niño custa trilhões, e o custo aparece de forma espalhada no tempo.

Por que a conta demora anos para fechar

Uma seca que quebra a safra em 2026 só vira preço mais alto no supermercado em 2027, quando aquela colheita menor chega às prateleiras. Uma enchente que destrói uma plantação afeta o replantio do ano seguinte. E economias que dependem de agricultura e pesca, geralmente países mais pobres, levam anos para se reerguer. É por isso que o efeito de um El Niño de menos de um ano se arrasta por meia década nas estatísticas.

O mapa do estragoQuem seca e quem inunda pelo mundo

O El Niño não faz a mesma coisa em todo lugar. Ele redesenha o mapa de chuvas do planeta, trazendo seca para umas regiões e excesso de chuva para outras. Entender esse mapa ajuda a antecipar onde os preços das commodities podem subir.

Como o El Niño costuma redistribuir chuva e seca

Sudeste AsiáticoSeca Indonésia, Índia e Tailândia tendem a sofrer estiagem, o que afeta a produção de óleo de palma, arroz e açúcar. A Índia já chegou a proibir exportações de açúcar em episódios anteriores.
Amazônia e Norte do BrasilSeca Estiagem severa, com risco de queimadas e de rios baixos que encarecem o transporte fluvial e o frete. A seca amazônica de 2023-24 custou cerca de US$ 26 bilhões.
África OcidentalSeca Gana e Costa do Marfim, que juntos dominam a produção mundial de cacau, ficam vulneráveis a chuvas irregulares e à propagação de doenças nas plantações.
Sul do BrasilExcesso de chuva Rio Grande do Sul, responsável por cerca de 71% do arroz brasileiro, pode enfrentar chuvas que dificultam plantio e colheita, como já ocorreu em episódios recentes.
Costa do PacíficoExcesso de chuva Peru e Equador recebem chuvas torrenciais e enchentes, com impacto direto na pesca e na infraestrutura das cidades litorâneas.

Do oceano ao carrinhoOs preços que já estão subindo

A parte mais concreta para quem lê isso é o efeito nos alimentos. O mercado financeiro não espera o fenômeno chegar ao auge para reagir: ele antecipa o risco de safra menor e já embute isso no preço dos contratos futuros, o chamado prêmio de risco climático. Em 2026, esse movimento já está visível.

Alta de preços de commodities agrícolas em 2026

Movimento dos contratos futuros ligado à expectativa do El Niño

Cacau +40%
Açúcar +22%
Café e outros em alta

Cacau em Nova York acumula mais de 40% de alta desde fevereiro de 2026, segundo a StoneX. O açúcar subiu cerca de 22% só em agosto. A consultoria reduziu a projeção de superávit global de cacau de 149 mil para 25 mil toneladas, refletindo o temor de quebra de safra na África Ocidental.

Vale entender por que os alimentos pesam tanto nessa conta, especialmente no Brasil. Como aponta o economista André Braz, do FGV Ibre, os preços dos alimentos consumidos em casa têm peso maior no orçamento das famílias mais pobres, então uma alta puxada pelo clima atinge de forma desigual, doendo mais em quem já gasta a maior parte da renda com comida.

O caso brasileiroO que os economistas projetam para o Brasil em 2027

No Brasil, a leitura dos economistas é relativamente consistente: o impacto inflacionário maior não é em 2026, é em 2027, quando a safra afetada pelo clima chega às prateleiras. As projeções variam por instituição, mas apontam na mesma direção.

Projeção O que estima Fonte
Inflação de alimentos em 2027 Alta de 7,5% a 9,5% nos alimentos consumidos no domicílio MB Associados
Impacto no IPCA Acréscimo de 0,6 a 0,9 ponto percentual à inflação oficial MB Associados
PIB da agropecuária em 2027 Retração de 1,3%, com o milho como cultura mais atingida (queda de até 17%) Itaú Unibanco
Custo do frete rodoviário Alta de 10% a 22% por causa da seca na Amazônia, que reduz o transporte fluvial MB Associados

Há também um fator que atenua o estrago em relação a décadas passadas: a migração de boa parte da produção agrícola para o Cerrado e o Centro-Oeste, regiões que respondem de forma diferente ao fenômeno em comparação com o Sul e o Sudeste. Isso não elimina o impacto, mas ajuda a suavizá-lo em comparação com episódios anteriores, quando a produção era mais concentrada nas áreas mais sensíveis.

Além da comidaOs outros canais por onde o clima vira economia

O impacto de um super El Niño não para na agricultura. Ele se espalha por outros setores, alguns menos óbvios.

Energia

Hidrelétricas e conta de luz

Seca em regiões de reservatórios reduz a geração hidrelétrica e pode acionar termelétricas mais caras, com reflexo na tarifa de energia e, por tabela, em toda a cadeia produtiva.

Saúde pública

Surtos de doenças

Chuvas extremas e mudança de temperatura estão associadas, em estudos, a surtos de dengue e de outras doenças transmitidas por vetores, o que pressiona sistemas de saúde.

Logística

Transporte e frete

Rios amazônicos baixos encarecem o transporte fluvial de grãos e combustíveis, e enchentes em outras regiões podem interditar estradas e portos, elevando o custo de tudo.

Mercado financeiro

Câmbio e juros

Inflação de alimentos mais alta pressiona o Banco Central a manter juros elevados por mais tempo, o que afeta o custo do crédito e o desempenho da bolsa e da renda fixa.

Meio ambiente

Queimadas e recifes

O El Niño de 1997-98 matou cerca de 16% dos recifes de coral do mundo. Secas ampliam o risco de incêndios florestais, com custo econômico e ambiental de longo prazo.

Seguros

Derivativos climáticos

Eventos extremos aquecem o mercado de seguros agrícolas e de derivativos climáticos, instrumentos que empresas usam para se proteger de perdas ligadas ao tempo.

RessalvasO que este artigo não pode prever

Previsão climática é probabilidade, não certeza

Mesmo com 75% de chance de ser o evento mais forte desde 1950, o El Niño ainda pode enfraquecer ou mudar de comportamento. As projeções da NOAA são atualizadas todo mês justamente porque o oceano é imprevisível.

Nem todo impacto econômico é culpa só do El Niño

Os próprios autores do estudo da Science alertam que separar o efeito do clima de outros fatores, como crises financeiras que aconteceram ao mesmo tempo, é difícil. Os números são estimativas de modelos, não medições exatas.

As projeções de inflação para 2027 podem mudar

Os números de MB Associados, Itaú e outros são cenários baseados em premissas de setembro de 2026. Uma safra melhor que o esperado, ou uma mudança na força do fenômeno, altera essas contas.

Conteúdo educacional, não recomendação de investimento

Este artigo explica um fenômeno e seus possíveis efeitos econômicos. Não constitui recomendação de compra ou venda de commodities, ações ou qualquer ativo ligado ao tema.

Nenhuma pessoa consegue controlar o Pacífico, mas dá para entender como ele mexe com a economia e se preparar. Saber que o impacto no bolso costuma vir com um ano de atraso, que os alimentos são o canal mais direto, e que o efeito se arrasta por anos, ajuda a colocar as manchetes climáticas em contexto, sem pânico nem indiferença. Clima virou, cada vez mais, uma variável econômica, e quem acompanha investimentos ganha em olhar para ele com a mesma seriedade que olha para juros e câmbio.

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Disclaimer: Os dados climáticos, econômicos e de projeção apresentados neste artigo têm finalidade exclusivamente educacional e foram checados em fontes públicas, incluindo NOAA, INMET e estudos publicados nas revistas Science e Nature, até 21 de setembro de 2026. Previsões climáticas e econômicas são probabilísticas e podem mudar a qualquer momento. Este conteúdo não constitui recomendação de compra ou venda de commodities, ações ou qualquer ativo financeiro. Para decisões de investimento, consulte um profissional habilitado.